sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A PALAVRA NA LÍNGUA.

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
*Poema de Hilda Hilst

domingo, 1 de janeiro de 2012

O SEGUNDO DIA.

*imagem: Grande Sertão Veredas, série vermelha, 2010-2012, acervo do autor 
O SEGUNDO DIA ANTECIPA ALGUMAS MUTAÇÕES PREVISÍVEIS NAQUILO QUE ATUALMENTE CONHECEMOS COMO ANO NOVO/VIDA NOVA. AS GARRAS SÃO COLOCADAS À MOSTRA NAS HORAS HIPÓCRITAS DAS SEGUNDAS DIA DE FEIRA: FIM DO MELODRAMA SENTIMENTAL, DOS VOTOS DE CARIDADE E BONDADE, DOS TOQUES DE SINOS E  CANÇÕES DE PAZ.
A VIDA NOVA NO NOVO ANO PODEM SE COINCIDIR COM AS MANHÃS DE UM MÊS TODO ACUMULANDO-SE NOS DIAS SIMILARES. SÃO DIAS SUCESSIVOS DE LUZ ARTIFICIAL, POIS AO CADUCAREM OS TEMPOS DRÁSTICOS QUE LEVAM CONSIGO A LUZ DO DIA, TAL COMO A CONHECÍAMOS COMO A CONTINUIDADE DA NOITE RENOMEADO PELA PALAVRA "ESPERANÇA".
PORTANTO, CADA DIA DEVERÁ SER RENOVADO DENTRO DE SI, NÃO DANDO AS COSTAS AOS DIAS IMPRÓPRIOS, PORQUE ESTES VIVEM DA TRAIÇÃO, DA INJUSTIÇA E DA MORTE DO CULTIVO DE SI.
POR OUTRO LADO, OS SONÂMBULOS QUE CULTIVAM O SÁBADO DA BALADA, A FRATERNIDADE DA ÉPOCA DO NATAL, OS SORRISOS CARAS DAS PÁGINAS SOCIAIS, ETC., ENCONTRARÃO UMA BOA PEREGRINAÇÃO, INCLUSIVE UM CALENDÁRIO SEGURO PARA PERAMBULAR SOB CONTROLE. PARA ESTES, RESTAM ESPERAR MAIS 364 DIAS ATÉ 2013 PARA COMEÇAR TUDO DE NOVO.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PASSAGEM DO ANO

 *imagem: Grande Sertão Veredas, série vermelha, 2010-2012, acervo do autor 
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário,

formatura,
promoção,
glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
o recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

ANDRADE, Carlos Drummond de. "A rosa do povo". In: Poesia completa.. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

domingo, 25 de dezembro de 2011

REQUIÉM NATALINO.

*imagem: o maldito papai noel devidamente enforcado por não ter aparecido no dia natalino!, acervo do artista.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A PELE QUE ME HABITA!

*imagem: filme "A Pele que Habito" de Pedro Almodovar.
HI DEAR...
AS PREOCUPAÇÕES ADESIVAS FICAM CONOSCO AO LONGO DO DIA, POIS É MUITO FORTE A SENSAÇÃO DE ESTAR SEMPRE COM PRESSA: ESTABELECEM-SE OS RECORDES DE PASSOS QUE LEVA À ECONOMIA ENERGÉTICA E A CARICATURA DO SORRISO DO GATO DE ALICE.
PREFIRO DESDRAMATIZAR, POIS TODOS SE LEVAM TÃO A SÉRIO NO "CARÃO", SEMPRE VENDO O MUNDO EM PRIMEIRA PESSOA: COLADAS A SI PRÓPRIO, AFOGAM-SE TODAS AS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E ARREPENDIDAS DEVIDO AO EXCESSO DE VIDA VIRTUAL EM TEMPO REAL.
DESDRAMATIZO O AMOR AO TRANSITAR PELA SURPRESA, PELA ROTINA E PELA OBVIEDADE/SIMPLICIDADE DA VIDA. A ISSO SE SOMA A SENSAÇÃO DE NÃO SABER OPTAR ENTRE RIR E CHORAR E ASSIM, UMA BELA DESPREOCUPAÇÃO FLUI!
UMA PESSOA QUE SE HABITA SERÁ FACILMENTE RECONHECÍVEL POR SUA MELANCOLIA DA PELE QUE RESPIRA-NADA-REGRESSIVA.
A VIDA ANTECIPA ALGUMAS MUTAÇÕES PREVISÍVEIS NAQUILO QUE ATUALMENTE CONHECEMOS COMO DIAS, E SE ARRISCA A IMAGINÁ-LOS EM UM FUTURO IMEDIATO, COLABORANDO PARA OS MINUTOS PRÓPRIOS, FAZENDO AS HORAS DOURADAS ATÉ A ESTAÇÃO DAS CHUVAS.
PS> UM BOM NATAL E NOVO ANO: SIMPLES, NECESSÁRIO, ÓBVIO E SURPREENDENTE COMO A VIDA!

domingo, 27 de novembro de 2011

RUÍNA

Um monge descabelado me disse no caminho: Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma descontrução. Minha idéia era fazer uma coisa com jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para ABRIGAR O ABANDONO, como as taperas abrigam. Porque o abandono não pode ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também um gato no beco ou uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (o olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR... A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para salvar a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo. E o monge se calou descabelado. *Livro Sobre o Nada - Manoel de Barros

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

MAIS DO MESMO...



*música: Adele -"Set Fire The Rain"
Ele me escreveu e pediu que eu respondesse...e quando fui ler quase precisei interromper para correr para cá..me esconder. Na verdade, interrompi. Já imaginou uma amizade nascida em salas de aula e conversas de bancos de pátio morar debaixo do seu travesseiro e aparecer nos brindes dos pacotes de sucrilhos como se você não pudesse mais saber que idade tem?
E como se eu não pudesse mais saber quem foram meus amigos de infância depois das primeiras linhas, fiquei sufocado. Parei. Olhei à minha volta, buscando os cacarecos e bibelôs a quem não dei uma espécie de santuário que ele deu e que uma vez vi e senti inveja, obrigando a voltar comigo uma sensação de culpa e intriga pelas duas partes da viagem, sem pausa na baldeação. Encontrei uma bailarina, mas que não é da coleção, e sim presente roubado de amigos no ano passado, talvez pra me avisar de que não devo me esquecer das outras empoeiradas nas caixas. E quis que ele tivesse ido me ver cantar e dançar.
Voltei à leitura, e quis ainda mais pelo caminho, imaginando como ele se divertiria se eu o colocasse pra ser justo o Lobo no teatro onde eu mandava nas crianças da rua com uma convicção que hoje chego à quase-vergonha quando encontro algumas delas nas ruas.
Tantas, pelos cabelos tingidos e semblante maduro, quando não as que carregam outras crianças com tênis do homem-aranha ou camisetas com escritos que ninguém entendeu, me irritam ao me lembrar que terei que escolher outro para o papel. E eu paro sem perceber e tenho logo quatro ou cinco roteiros que sei que terei que adaptar a cada segundo aos seus xiliques e palpites e o quanto isso vai quebrar minha concentração.
O menino com mania de grandeza teria problema cardíaco cedo, por levar a sério os detalhes da produção que ele confundiria já no "cheguei, pessoal".
Mas eu queria mesmo era que ele tivesse ido me ver dançar. E quando estreei com a sapatilha de fazer bolhas, tem gesso na ponta, por isso eu não caio! E quando parado no palco por longos segundos porque a parte da música é assim mesmo, calma! ele poderia fazer barulhos com o saco de pipocas pra me lembrar que íamos pra casa dele depois e eu assopraria o castelo de cartas de cara e arrancaria com pressa todos os grampos do cabelo pra gente dar espaço pra qualquer idéia que quisesse balança-lo.
Queria ter feito-lhe um texto, mas pro teatro, pra ele mexer todos os sentidos de uma só vez e no dia da apresentação os pais não entenderem nada da gente, porque adulto pra entender criança pensa logo que precisa reduzir alguma coisa, e reduz e bóia tanto e por isso mesmo não gosta, achariam esquisito, talvez dessem um vídeo game pro filho e a gente ia rir tanto de deitar as costas na calçada.
E depois que terminei de ler, parei na foto que ele escolheu pra representar duas dele, ou duas de mim, ou duas de quem? Se somos tão diferentes! E eu que ao conhecê-lo de cara quis levar pra casa um pedaço de sagacidade ou ousadia to ouvindo agora que ele já tinha algo de mim bem antes de eu saber que onde moro não é a única cidade do mundo e que pode-se demorar algumas horas para chegar ali onde a gente combinou.
E depois de conhecê-lo tanto, eu desconheço a partir de hoje. Porque agora temos exatamente tudo pela frente. Teremos a infância juntos, e na infância não se conhece a saudade.