sexta-feira, 17 de junho de 2011

PEQUENAS EPIFANIAS DO EU PROSTITUTO NA RUA AUGUSTA-CIDADE...

* Para ser lido ao som de Patti Smith
Caro Diário
Fim de tarde.
Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste (é ai que escrevo textos longos!).
Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco  choroso(ou muito) chato.
Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Sorrir pra fingir que é verdade, pra que?
Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer?
Típico pensamento-nada-a-ver: sossega-o-rabo, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará.
Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia.
Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, emos, automóveis, nuvens, anjos bandidos, undergrounds relinchando, fadas piradas, pessoas com cara de bunda, descargas de monóxido de carbono.
Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: "Não digas 'Eu sofro'. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?" 
Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, nem gozo, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter.
Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa. Disfarçado, comecei a chorar.
Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban-filme, shortinho-Valdirene. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia. Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi.
Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo mal pintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.
E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade.
A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo.
Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho.
Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades.
Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada.
Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida.
Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano (credo), uma caixa de alfajores ou figos.
Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-chinfrim. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais.
Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87, 97 ou 2007?: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, macabeano, abandonado, golpeado, irado e sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo.
Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas.
Quem consola aquela prostituta?
Quem me consola?
Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes?
Quem consola este país tristíssimo?
Vim pra casa humilde. Depois, uma amiga me chamou para ajudá-la a cuidar da dor dela. Guardei a minha no bolso. E fui.
Não por nobreza: cuidar dela faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero).
E quando ela perguntou "porquê?", compreendi ainda mais.
Falei: "Porque é daí que nascem as canções".
E senti também um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. 
Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

TROCA-TROCA ENTRE PRIMOS.


*IMAGENS: NAN GOLDIN
CARO DIÁRIO
PARA SER LIDO AO SOM DE ANTONY AND THE JOHNSON...
ADORARIA TER LEVANTADO FEITO AS PRINCESAS DA DISNEY, COM CARA DE "FUI BEIJADA POR UM PRÍNCIPE" OU "UMA FADA MADRINHA APARECEU EM MINHA VIDA E OLHA: COMO MEUS CABELOS E PELE MELHORARAM? (IN)FELIZMENTE NÃO LEVANTEI ASSIM, ULTIMAMENTE ANDO LENTO, COISAS PRA FAZER E/OU REFAZER... VIDA PRA RECOMEÇAR! 
ESTA HISTÓRIA DE PRINCESAS, REFEZ "ME-MEMORAR" UM EPISÓDIO ENGRAÇADO E QUE ACONTECEU ENTRE PRIMOS (NÃO É UMA HISTÓRIA DE TROCA-TROCA, DIGO DESDE JÁ VIU!). FOI HÁ ALGUNS ANOS ATRÁS, TINHA ASSISTIDO "A BELA E A FERA" E OK. ÓTIMA SESSÃO DA TARDE.
MINHA PRIMA VEIO COM OUTROS PARENTES PARA UMA BREVE VISITA E ACABOU ASSISTINDO O MESMO FILME. PASSEI PELA SALA E A MESMA CHORAVA COMPULSIVAMENTE, COMOVIDA PELA TRISTE HISTÓRIA DA BELA, POIS A FERA ERA UMA CRIATURA TERRÍVEL, HORRÍVEL MESMO! LOUCA!!!
DEU UMA ENORME VONTADE DE RIR, MAS FIQUEI ASSUSTADO, POIS LÁ CÁ COM MEUS BOTÕES, A FERA ERA A "VERDADEIRA" VÍTIMA DA HISTÓRIA (HAVIA SIDO AMALDIÇOADO E ENCAPSULADO NUM "FARDO")  E A BELA ESTAVA NO BEM-BOM, NUM CASTELO LINDO E COM CRIATURAS MÁGICAS E ONÍRICAS. TINHA  CAMA CONFORTÁVEL, COMIDA FARTA E QUENTINHA E ATÉ ROUPA LAVADA (SEM CONTAR OS INÚMEROS VESTIDOS NOVOS).
A VIDA DA BELA LONGE DA FERA ERA UMA MERDA, O PAI UM FRACASSADO-AUSENTE VICIADO EM JOGATINA E SEU PRETENDENTE, O GASTÃO, UM EGOLÓTRA VICIADO TAMBÉM, MAS NO PRÓPRIO EGO. O MUNDO ATUAL COPIA O GASTÃO. 
TALVEZ PERCO TEMPO FALANDO DISSO, POIS A VIDA (PELO MENOS A MINHA) É UM DESENHO NADA ANIMADO COM OGROS, PSICOPATAS, PERSONAGENS SAINDO DO FILME "MULHER SOLTEIRA PROCURA", MAS COMO DIZ MARÍLIA GABRIELA, VOLTANDO AO ASSUNTO, ANOS SE PASSARAM. CAFÉ DA TARDE VAI, CAFÉ DA MANHA VÊM E ACABAMOS DEPOIS DE MUITOS PÃEZINHOS AMANHECIDOS A FALAR DE CONTOS DE FADAS, POIS NOSSAS VIDAS ESTAVAM MAIS PARA FILMES "B" DE TERROR DA DÉCADA DE 70, SEM QUERER O ASSUNTO ACABOU CAMINHANDO PARA O DIA EM QUE AMBOS ASSISTIMOS O DESENHO E TIVEMOS SENSAÇÕES E REAÇÕES ADVERSAS, MAS SEM EFEITOS COLATERAIS, CLARO.
PARECÍAMOS, NESTA CENA, DUAS NAZARÉS-RAPOSAS-FELPUDAS, COM SEUS CONHAQUES, SEM FADAS, PRÍNCIPES, SAPOS E ESTRELINHAS CINTILANTES NO CÉU. ACABAMOS DEPOIS DE MUITOS "CAFÉS MANCHADOS DE LEITE", PÃES FRANCÊS (NEM SEMPRE FRESQUINHOS) E MARGARINAS DE MARCA BARATA, DESCOBRINDO QUE É NECESSÁRIO TER A FANTASIA, CONTUDO, É NECESSÁRIO ENCARAR A VIDA SEMPRE E SABER COMO ELA REALMENTE É. DEVEMOS ASSIM CONHECER  A VIDA, PARA ASSIM AMÁ-LA CONFORME ELA SE APRESENTA PRA VOCÊ. É UM CONTRASTE! É NECESSÁRIO VIVER A VIDA, PARA TER A VIDA, QUE NÃO VIVEMOS SE NÃO NOS SAÍMOS DE NÓS.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

OS METRÔS E TRENS EM ENVERGADURA...

*IMAGEM: VALÉRIA E JANETE, QUADRO DO PROGRAMA "ZORRA TOTAL".
CARO DIÁRIO
VALÉRIA DISSE TUDO SOBRE A FALTA DE ESPAÇO...(subjetivos, oníricos, sociais, reais, etc)
- QUER MAIS ESPAÇO?
FAZ A ANGÉLICA!
VAI DE TÁXI.