domingo, 14 de setembro de 2014

JÁ É SETEMBRO, MAS NÃO É PRIMAVERA!



*IMAGEM: AUTORRETRATO, SETEMBRO DE 2014.
PARA SER LIDO AO SOM DE ADRIANA CALCANHOTO
CARO DIÁRIO
O CÉU TÃO CARREGADO LÁ FORA, E AQUELE MAL-ESTAR AQUI DENTRO!
A VENTANIA SECA DO INVERNO LEVANDO PARA LONGE OS ÚLTIMOS BONS ESPÍRITOS DOS CACHECÓIS COM CHEIROS DO MONÓXIDO DE CARBONO DOS AUTOMÓVEIS ENTUPINDO AS AVENIDAS.
DENTRO DO MERCADO, A FILA QUE NÃO ANDAVA E PAULISTANO ADORA FILA! WHY? AR CONDICIONADO QUEBRADO, LOURAS-PERIGUETES-CABELOS-ÁGUA-DE-SALSICHA, MANOS E MINAS, VELHAS GORDAS EXIGINDO O SEU DIREITO PREFERENCIAL DE TODAS AS PRATELEIRAS. HÁ TAMBÉM UMA COREANA GRITANDO COM A CAIXA COISAS DO TIPO: “VOCÊ É BURRA?”... (EU SE FOSSE A CAIXA METERIA A MÃO NA CARA DELA!), PESTINHAS BERRANDO PELOS BONECOS INTERGALÁCTICOS DOS KINDEROVOS E EU SONOLENTO PEDINDO ALGUM TIPO DE GOZO (SERIA DEMAIS PEDIR UMA CADEIRA?) E O SUOR E A NÁUSEA E A GRIPE E O FLERTE DE TODOS OS MERCADOS NAS NOITES DE SEXTA-FEIRA!
OLHEI AS PRÓPRIAS COMPRAS: LEITE, POLPAS DE FRUTAS CONGELADAS, ACTIVIA (POIS O DESTINO É SE SENTIR LIVRE E SEM AQUELA SENSAÇÃO DE INCHAÇO!), BISNAGUINHAS PULLMAN E NUM SURTO DE EXTRAVAGÂNCIA, UMA GARRAFA DE VINHO TINTO PORTUGUÊS. JÁ COM MOCHILAS E VALISE DE MÃO, AMONTOEI NO BALCÃO MEUS VÍVERES, UMA CESTINHA TRANSBORDANTE DE COLESTEROL SUGAR PUNK.
SUSPIREI...OLHEI PARA CIMA E LÁ HAVIA UMA PLACA: “SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO”. ESTAS PLAQUETAS ME DEPRIMEM! DÁ VONTADE DE DANÇAR ATÉ O CHÃO. OLHEI TAMBÉM AS INÚMERAS REVISTAS (DIETA JÁ, COMO SER FELIZ EM SETE DIAS, RECEITAS CULINÁRIAS DE CINCO MINUTOS, REVISTAS COM CAPAS ASSUSTADORAS DE AUTO AJUDA). LÁ TAMBÉM ESTAVAM ENCURRALADOS AMONTADOS DE PACOTES PLÁSTICOS LAMINADOS DE SALGADINHOS DE ISOPOR DE SABORES DIVERSOS, CHOCOLATES BIS, PILHAS DE CAIXAS DE BIS DE TODOS OS NÃO GOSTOS DE SABORES E CORES POSSÍVEIS.
SUSPIREI. SUSPIREI OUTRA VEZ. SUSPIREI MUITO, E VOLTEI A OLHAR PARA FORA, PARA ALÉM
DAS CABEÇAS. CONTINUAVA O CÉU ESCURO E NUBLADO NAQUELA CIDADE TEDIOSA. A CALÇA ADIDAS DE BRECHÓ JÁ COM RASGOS E CERZIDOS ENTRE AS PERNAS, A BLUSA HERING PRETA DESBOTADA, O DINHEIRO CONTADO ESCONDIDO NO BOLSO DE ALGUM ESTOJINHO DA VALISE DE MÃO. PINGUIM EQUILIBRISTA QUE NÃO SE APOIAVA EM NADA NEM NINGUÉM. RESPIREI FUNDO: MORANGOS, MANGAS MADURAS, MONÓXIDO DE CARBONO AROMATIZADO POR PÓLEN DE JASMINS NAS POUCAS VARANDAS NAUSEABUNDAS.
O VENTO JOGOU MEUS CABELOS EMO DATADOS DE 1999 (ÉPOCA EM QUE ENTREI NA USP), SOBRE A CARA. SACUDI A CABEÇA GRANDE PARA AFASTÁ-LOS DOS OLHOS E SAI ANDANDO LENTAMENTE EM BUSCA DE UMA RUA SEM CARROS, DE UMA RUA COM ÁRVORES, DE UMA RUA COM FLORES, DE UMA RUA EM SILÊNCIO ONDE PUDESSE CAMINHAR DEVAGAR E SOZINHO ATÉ CHEGAR EM CASA. SEM PENSAR EM ANDA, SEM NENHUMA AMARGURA, SEM NENHUMA VAGA SAUDADE, REJEIÇÃO, RANCOR OU MELANCOLIA. NADA POR DENTRO E POR FORA ALÉM DAQUELE QUASE SETEMBRO-PRIMAVERA, DAQUELA NOITE DE SEXTA FEIRA, DAQUELE VENTO, DAQUELE CÉU EM PENUMBRA, DAQUELA NÃO DOR AFINAL!

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